segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

BELA CONJUGAÇÃO

 

BELA CONJUGAÇÃO

Maria

 

                Carlinhos, estou ligando, ligando e... nada!

                Mas, enfim, envio-lhe o   meu abraço por estas vias modernas: só Deus sabe como meu afeto chega até aí...
                Imagino o infinito cheio de recados, risadas, emoções, tudo isso derramado no azul...
Feliz Natal Carlinhos! Feliz 2012!   Os enfeites das palavras ficam por conta   da   beleza do dia, da suavidade das lembranças. 
                       ********************************

                Então, ressurge o Dr. Carlos Alberto Diniz Silva, a quem ainda chamo de Carlinhos, por obra e graça do tempo estrelado, quando fui sua professora no 4º ano...

                Tudo que me vem dele é brilhante, artístico, surpreendente!

                Seu presente de Natal me levou para tempos que estão guardados na minha Arca de Tesouros.

            “Carlinhos, passada a primeira linda surpresa de ver você na tela, depois de assimilar as danças, cores, deposito naquela imensa mesa vazia  -bem ao alcance de suas mãos que esperam - a ESPERANÇA, aquela que Pandora esqueceu de fechar na caixa mágica, como você encerrou sua mensagem...”

                Ah, Carlinhos, fiquei benta com sua lembrança...Como presente, envio-lhe a crônica   NOVA MORADA - aí estou, com minhas saudades e lembranças, buscando refúgio onde não sei vou encontrar...
              “Natal –palavra...  Dentro dela,  quem sabe, só dentro dela,  o mundo  encontraria a essência de viver. Meu coração acredita na força dessa palavra-vida   que sabe fabricar a paz sonhada por todos os tempos.”(Fragmento  de Nova Morada)

            Um Natal estrelado (Estrelado de Indaiás) para seu coração que continua terno e  amigo.

                 O aluno-doutor me responde:

              “Você me manda uma coisa linda como essa e não quer acreditar que eu te eleja como ícone. Só os literatos como você podem amar uma palavra pela palavra. Considero sua crônica um hino de amor à palavra escrita. Se a escolhida foi Natal é mero pretexto. Adoro metalinguagem. Posso te dizer que você já mora dentro das palavras. Tenho verdadeiro fascínio pelas palavras, pelo escrito. Palavra é algo quase sagrado para mim .”

                Ele tocou em PALAVRA   - um de meus  maiores encantamentos. Daí....

                “Nossa, pensei que ninguém ia entender o quê eu queria dizer e você foi além... Por isso, gosto tanto de conversar com meu aluno... Você me enriquece, me adivinha... Eu amo a palavra, amo! Acredito na sua força, no seu magnetismo, na sua sonoridade.”

                Carlinhos e eu  continuamos nossas aulas – agora ele é o professor –e fico orgulhosa de descobrir que ele (a)prendeu os caminhos da POESIA, tão suavemente delineados em um tempo mágico. Até então, éramos todos poetas – habitávamos a mesma morada...uma estrela...  Alguns ofereceram o coração para  a POESIA fazer sua morada e ressurgisse cada vez mais bela. Carlinhos foi um deles.

                  Ele me disse que escolheu o curso de Medicina influenciado por minhas aulas de Ciências... Eu finjo acreditar... A professorinha levava material moderno para suas aulas, querendo aplicar o quê aprendera no Instituto de Educação de Minas Gerais: coração de boi, comprado no açougue do Ladislau... Um barbante azul fazia os caminhos da grande circulação e outro –vermelho – mostrava a  pequena circulação...  Uma galinha de nossos quintais verdes e perfumados - para ser aberta e dissecada pelos alunos: nervos, pele, movimentos dos membros da galinha – tudo era motivo de grandes descobertas para nós. A turma voava com a imaginação da professorinha. E a professorinha voava com o encantamento dos alunos.                                                                

                 As aulas sobre POESIA eram outro motivo de emoção para  a professora romântica - e para os aluninhos, ávidos do encontro com a beleza. O poema A FONTE E A FLOR (Vicente de Carvalho) nos  levou a uma  sessão  de lágrimas e emoção... Enquanto a florzinha ia se despedindo, nós chorávamos comovidos...“Deixa-me, fonte,/ dizia a  flor, tonta de terror/e a fonte  rápida e fria/Cantava  levando a  flor”.

                 Intelectual por excelência, ele entende de palavras como poucos. Cultiva a metalinguagem e, em uma conversa recente, confessa que:

            “Em tempo, o conto do Guimarães Rosa "Ave palavra" também é um declaração de amor às palavras. Eu tenho uma coisa com palavra que talvez você também tenha. Quando estou enamorado de uma palavra (nem precisa ser um neologismo nem palavra recém-descoberta) fico louco para escrever algo só pra poder encaixá-la. Fico caminhando e bolando uma história, até que ela se encaixe redondinha, como se estivesse besuntada de manteiga. Eu só consigo escrever se tiver uma palavra que dê início ao processo. As boas ideias quase nunca resultam em nada. Tem palavras que eu não gosto. Nem sei a razão. Varejão, por exemplo. Me dá arrepio, acho que me lembra mosca varejeira. Algumas palavras entram no meu agrado e depois saem sem que eu perceba. Outras ficam pelo resto da vida. Alvorecer, por exemplo.”

                 E eu fiquei mais bento ainda com a manifestação da pessoa que mais admiro e gosto no mundo.

                Carlinhos, eu também me enamoro de palavras - às vezes é paixão duradoura, outras vezes, passa rápido... Detesto: cônjuge - parabenizo - em prol – e outras...Adoro: Aurora - lâmpada - estrela, morada - esperança - passos - caminhos...

                O tecido poético entre professora e aluno continua e ele

                Temos um ponto em comum no namoro das palavras: eu, alvorecer; você, aurora... Bela conjugação: Aurora - lâmpada - estrela, morada - esperança - passos - caminhos... (Minha morada é a esperança e vou seguindo seus passos nos caminhos iluminados pela lâmpada  iridescente da precoce aurora).

                A  sineta bate... Terminou a aula . A  professora ajunta  os cadernos...   Enquanto isso, Carlinhos,  fique com a nova conjugação de verbos - que descobrimos pela POESIA!  

                Eu auroro / Tu alvoreces / Nós estrelamos...

 

                Imagino o infinito cheio de recados, risadas, emoções, tudo isso derramado no azul...

 

                       Dores do Indaiá, 5 de janeiro de 2012

 

LI(N)DONETA

 

LI(N)DONETA

 

Maria

 

 

O nome dela era LIDONETA.  Hoje, eu a chamaria de LINDONETA...

_Por quê?

Porque ela era linda, lin – in –in -da!

E pensar que eu nunca lhe falei isso, assim, com a alma debruçada em meu olhar...

Ela está junto com outras palavras e gestos calados dentro do meu coração.

Pensar, eu pensei...

Mas descobri, há muito tempo, que só pensar não atravessa a terra, muros e paredes.

Por isso, escrevo contando sobre meus afetos.   Para que o vento as leve até onde elas precisam ir.

Eu queria chegar na casa pobre da Lidoneta, com um ar de festa no rosto, um ar de gratidão na minha fala, diferente das outras vezes.

Quem sabe, levaria um ramo de flores para ela – coisa desusada naquela época – talvez ela não entendesse meu gesto...

Quem sabe, eu chegaria com um corte de chita ramada para enfeitar seu corpo magro e cansado, quem sabe?

Assim, um pano diferente, bordado da luz dos meus olhos, uma luz diferente da que ela viu tantas vezes... Quem sabe?

Quem sabe, eu escreveria seu nome, com a letra mais bonita que eu pudesse escrever, só para ver seu olhar de admiração, aquele olhar que se encantava com qualquer gesto meu.... Quem sabe?

Talvez ela me contasse uma das histórias antigas que eu gostava tanto de ouvir, ou contava casos de minha mãe e de meu pai, casos que me ajudavam a compor  a história de minha infância, num tempo em que não me lembro, tão  pequena eu era...

 

“Era lá no Quartele de São João, ela falava com sua linguagem simples... Seu pai tinha uma venda... Era pertinho da Capelinha... Ele ia pro garimpo ... Pegava muita pedrinha miúda... Não  valia nada... Dia de missa, sempre dava briga, com tiro de espingarda, os homens disparados nos cavalos bravos... Sua mãe tinha tanto medo, que entrava debaixo da cama com nóis tudo... Nem na cozinha ela deixava a gente ir... Nóis comia bolacha da venda, até passá o tiroteio... Um dia, eu caí da rede, bati a cabeça na parede, fiquei sem fala... Sua mãe pôs uma colher no galo – deste tamanho – A Dooneta mostrava a testa ossuda e magra.   Eu ouvia as histórias, como se não fizesse parte delas, por ser tudo tão longe, tão distante, num cenário que nunca vira...

Eu morava com eze, inté casá... Depois, fiquei só lavando roupa pra fora... Quando ocê nasceu, de tão branca, era até transparente... O leite de sua mãe era raco, eu tinha acabado de ganhar a Dora... Então, dava de mamá pras duas... E ria , como se me devesse mil favores, toda cheia de mesuras para com a filha que , também recebera o nome de Maria das Dores, prucausa de Nossa Senhora das Dores, a que ocê gosta de falá que é a Santa Azul... Ocê com suas escrita ... Há – há – há!!! Eu queria que  eze chamasse ocê era de Dorinha, pruquê a minha ficou sendo Dora... E ria de felicidade!”  

 

Agora, não há mais tempo de eu falar com a Doneta – minha mãe-lavadeira, que eu a batizei de Lindoneta, porque a achava linda em sua simplicidade, em sua memória para contar histórias...

Quem sabe, eu herdei dela, de minha mãe-de-leite, essa mania de contar pro mundo todos os meus amores, todos os meus afetos, todas as minhas alegrias e tristezas?

Mas, eu queria chegar lá, num dia diferente, com um olhar diferente, cheio de luz, com bordados de nuvens em meu sorriso, com flores lindas para ela...

Eu queria lhe dizer:

_ Doneta, eu acho você linda!  Para mim, seu nome é LINDONETA...

E  ela riria de mim, achando que era meio boboquinha, com essa mania de contar histórias do meu coração para o vento levar...

Tomara que o vento encontre o caminho da casa da Doneta, lá no meio das nuvens, balançando numa rede, dando  seu leite bom para criar mil anjinhos.

 _Tomara!

 

 

 

 

(Essa história é para a Doneta- lavadeira, minha mãe-de-leite que, tenho certeza, iria morrer de vergonha de ver seu nome no jornal...)

 

   Dores do Indaiá, 15 de maio, mês das Mães, de 2009.

BANCO DE AFETOS

 

BANCO DE AFETOS

 

 

Maria

 

 

         A vida toda me vigiei contra a porta escancarada do banco de afetos que me colocaram no peito.  Sem sucesso...

         Em matéria de afeto, sou uma escrava dos menores gestos: um sorriso desconhecido – numa esquina qualquer – me comove muito e tenho vontade de  agradecer em voz alta: Deus lhe pague! Um abraço antigo – com gosto de infância, me põe feliz  por dias e dias...

         Se estou  querendo ficar com  cara de idosa,  lá vem um telefonema de uma noivinha querendo minha letra desenhada nos envelopes e... adeus, vovó! Fico mocinha também, só por causa daquelas tintas, daqueles arabescos, daquela lista de nomes e daquela espera  - sem querer, também espero o  dia tão sonhado!

         Quando estou quase ficando velhota de verdade, lá vem um neto querendo uma frase bonita, um título diferente para um trabalho, adeus, tristeza!

         Se a tristeza está quase me pegando no esconde-esconde da vida, corro ao meu banco de afetos, tiro de lá mil poemas escolhidos, canto trechos de serestas, recordo-me de bailes antigos, reescrevo a história de amor que escrevi a quatro mãos com o meu BEM e...adeus vovó!

         Fim de ano sempre me dá uma solidãozinha, sempre me dá uma tristezinha que, aos poucos, espanto com os lacinhos vermelhos de minha árvore de Natal, com a velha guirlanda que eu fiz há muitos anos e    que, ainda, enfeita a minha porta.  Nunca faço novos enfeites – uso os mesmos para dar aquele ar de que tudo continua como era.  Afinal, no meu coração, Natal é isso: certeza de que tudo está só guardado e embrulhado, que é  só desfazer os laços, tirar tudo do banco de afetos  e começar outro ano.

         Surpreendo o olhar de meus filhos ao verem os mesmos enfeites que atravessaram o tempo: pelo menos, aqui, ele parou  e eles têm a impressão de que tudo está igual, apesar dos cabelos que continuam grisalhando, apesar de seus filhos já estarem em Faculdades , construindo outras esperanças, apesar de que ....

         É com o meu banco de afetos que espero o novo ano chegar: lá estão os pedaços  mais ternos de  minha vida. Foi com eles que cheguei até aqui, embalada por um passado singelo, cheio de rostos queridos, de vozes encantadas, de olhares iluminados por luzes infinitas. Foi com essa vidinha que construí meu presente , cheio de  Deus, cheio de lembranças bonitas, cheio de afetos.

         O afeto é mágico, pois (re)úne pessoas distantes, transforma velhos-amigos-velhos em crianças iluminadas pela certeza de  que haveria  um ano-bom e  haveria esperanças...

 Criança  como eu fui um dia,  agasalhada nas doces asas de minha casa amarela de Estrela. Como ainda sou, agasalhada nas asas de minha casa de vó que prepara o presépio como quem prepara o futuro para meus filhos ,

 netos e, agora, com o encantamento que tenho com meus dois bisnetos, Isadora e João Pedro...

É o meu banco de afetos que enfeita a nossa  mesa de trabalho com um calendário novo, onde o novo ano  me abraça e espera minhas palavras novas...      Olho o calendário novo - os doze meses - que me farão companhia- me esperam.  Nós nos olhamos como dois conhecidos antigos, sabendo que estaremos juntos, outra vez.  Não tenho medo do novo ano, porque estou segura junto às riquezas que armazenei em meu banco de afetos... Riquezas que vou tirando, aos poucos, como contas de um rosário que rezo devagarinho, nas horas de chuva brava, nas horas de pequenas solidões e algumas horas tristinhas.

         Meu banco de afetos nunca me deixa na mão, porque ele foi fabricado com pequenas coisas preciosas que recolhi   e guardei em meus caminhos: um olhar amigo, um abraço do meu BEM, uma risada de um neto, uma gracinha dos bisnetos, uma oração que minha mãe me ensinou, uma carta de meu pai, lembranças e saudades guardadas  junto com   as esperanças renovadas, pelo carinho dos que vieram depois de mim e pela  fé em um tempo melhor, como o a alegria do Natal me indica.

          Sem falar que, a chavinha mágica do meu banco está guardada em um lugar bonito de minha alma  e que  posso abri-lo ao menor gesto de emoção:  um sorriso-amigo encontrado em uma esquina,  um canteiro de jardim um entardecer de minha terra,  uma igreja que canta para mim na voz de seus sinos de bronze...

         Pois é. Tenho uma chavinha mágica que me faz feliz a qualquer hora, em qualquer lugar.   E, pra que mais?

         _ Pra quê?

 

         Dores do Indaiá, 21 de dezembro de 2024

BICO DE PÃO

 

BICO DE PÃO

 

Maria

 

(Para minha avó Christina, que fabricou a lembrança mais antiga- e mais doce – que tenho do Natal)

 

 

         Para mim, as lembranças mais antigas são passes de magia, são arte(manhas) de fadas, são riscos azuis de voos de anjos. De vez em quando, eles batem asas no fio de minhas saudades e me carregam nas suas asas; Donos do infinito, anjos e fadas não escolhem lugar para um descanso. Pousam aqui, pousam ali, em qualquer saudade – nova ou antiga.

         Pois então. Um anjo esbarrou/esvoaçou no infinito de minhas lembranças e... sem mais nem menos...

        

         Uma menininha de três, quatro anos, talvez...

         Uma cozinha antiga amanhecendo,  a sapata de um fogão a lenha – com remendos novos no cimento velho... a boca preta do fogão cuspindo  fumaça e labaredas que dançavam sob a chapa de ferro... A tampa de  um caldeirãozinho alegre balançava e cantava na cozinha, encantando os olhos da menininha: o feijão do almoço perfumava o ar com um cheiro de Deus.

         Uma porta entreaberta, por onde entrava um friozinho matinal, um frio cheio  de fiapos da noite que ainda não acabara de acordar. Com certeza, o orvalho ainda reinava na manhã sonolenta  -o sol  preguiçoso nem conseguira apagar as sombras... A casa, o quintal, tudo tentava abrir os olhos para aquela manhã fria e rendada.

         Pela porta entreaberta, a figura de minha avó chegou junto com a sombra  que se desenhou no chão. A menininha percebeu que a  avó estava feliz. Na mão, um punhado de cebolinhas orvalhadas e mais um ramo de salsas que acabavam de sair do banho, porque seus cabelos verdes também estavam bentos pela manhã rebordada de fios da aurora. O inusitado buquê dava à vovó Christina um ar de noiva. Uma noiva pintada em sépia...

         Aquele anjo esvoaçou em minhas saudades/lembranças e não me lembrou palavras: a cena  seria uma pintura, um filme do cinema mudo. A noiva não disse nada – apenas entrou pela porta, anunciada pela sombra esguia.

         Com outro gesto brando, depositou o seu original buquê de noiva em um prato de louça branca, onde tomates minúsculos nadavam em água fresca.

         Senti que era Natal: o cheiro da manhã molhada de chuva, a paz   estampada no rosto sereno de minha avó, vozes cantando na Igreja ao lado, tudo fazia a menininha sentir que era Natal...

         _ Que música era aquela?

         Meu coração responde: NOITE FELIZ...

         Claro, era Natal!

         O momento mágico -  que aquela manhã fabricou – ficou nas retinas da menininha: a avó derramando o café ralo e docinho num bico de pão para sua neta – um momento único para as duas... A caneca  azul/esmaltada onde  florinhas brancas sorriam para a manhã. O cheiro doce se espalhando pela casa silenciosa.. Cheiro de céu, cheiro de Deus...

 

         Ah, em 2005, em anjo/poeta deveria entrar por minha porta... Deveria  arranjar uma noiva etérea, com um buquê de salsas e cebolinhas. Arranjar um prato/lago, onde tomatinhos molhassem a carinha vermelha na água pura.

Deveria  arranjar um pão antigo, um pão de bico/um bico de pão, bem torradinho, verdadeiro seio onde a menina sugava a paz.

         Ah, eu queria uma Igrejinha cantando perto, eu queria o encantamento daquele  instante  mágico...

         Ah, eu queria um    bico de pão, com café bem ralinho, com gosto de Natal-menino.

         Ah, eu queria uma porta entreaberta por onde surgisse uma sombra com o rosto de minha avó...

 

         Porque... hoje em dia, o pãozinho de sal não tem magia e a menina antiga perdeu o seio da PAZ...

        

         Natal de 2005 – Dores do Indaiá.

          

sábado, 19 de julho de 2025

CHUVA DE POESIA

 

CHUVA DE POESIA

Maria.

(Essa crônica é para lembrar o Sô Tavinho, que ganhou -de presente -um Memorial com seu nome, lá em Estrela do Indaiá: MEMORIAL OCTÁVIO SILVA)



- Onde a poesia me encontrou?

-Onde eu encontrei a poesia?

De verdade, de verdade, não sei apontar um único lugar, um único momento pra falar: FOI AQUI!

De vez em quando, consulto meu coração e penso, penso...

Mas descobri: a poesia é diferente de pessoas, é diferente de reis, rainhas, Papas, Presidentes... Poesia não precisa de Certidão de Nascimento – ela já existe sozinha. Penso que ela nasceu quando Deus fez o mundo e ficou por aí, em qualquer cantinho, em qualquer nuvem, em qualquer sorriso. Assim, feito a alegria, a felicidade, os sonhos.

Eu nunca vi a poesia..Mas, que ela existe, existe.

_Onde encontrá-la?

_Não sei ao certo...

Pensando bem, encontrei a poesia em lugares nunca dantes navegados, em lugares simples demais, em recantos escondidos demais, em flores pequenas demais, em falas , em abraços, adeuses e chegadas...Encontrei a poesia valsando lânguidas valsas, entoando cânticos em igrejinhas, rezando ladainhas e até na boca do leiloeiro de prendas das barraquinhas de maio: Quanto me dão por este rebuçado?...

Pensando bem, se eu quiser aprisionar a poesia para lhes mostrar o rosto que ela tem, não conseguirei: ela é feiticeira, não se deixa aprisionar, assim, só numa concha de mão...

Assim- assim,... com encontro marcado, tenho certeza, não a encontrarei. A poesia é misteriosa: se marco dia e hora para nos vermos, ela me escapa... Se eu não espero, nem estou me lembrando dela, lá vem a dama encantada e me carrega nos braços...

Pois então: eu era bem mocinha, meninota, vivia em uma certa estrela – Estrela doo Indaiá.

Uma chuvinha fina, daquelas de molhar bobo, desmanchou o vaivém que a moçada fazia em frente ao Bar Avenida, ao ladinho da igrejinha .

Naquele tempo, andávamos pelo calendário da Folhinha Mariana e ela bem que avisou que teríamos chuva... Mas, fingimos não acreditar...Não queríamos acreditar, porque havia a promessa de novidades no ar... A decepção de ficarmos sem o vaivém foi grande... O lugar era tão carente de surpresas boas!

Decepção maior por causa da inauguração do SERVIÇO DE ALTO-FALANTE IRMÃOS VASCONCELOS - coisa vista só em Parques e Circos – cometas luminosos que apareciam de quando em quando...

Todo mundo de roupa nova, papelotes nos cabelos, pintinha de lápis no rosto, uma noite especial. Era só pedir uma música – num papelzinho rabiscado às pressas- e a voz possante do Nonô e do Viê – irmãos estudantes em férias_ faria a mágica dos ouvintes.

Tudo de graça- tudo dado – como dizia a Estrela toda: brinde da estreia que a chuvinha fina atrapalhou...

Fomos dormir, chuezinhas, eu penso que nossos olhos choravam como a chuvinha...O silêncio na Estrela era total, só o barulhinho da chuva mansa no telhado antigo...

De repente, milagre!

Um voz diferente, sem a energia dos dois locutores jovens e treinados para a doce aventura de anunciar amores e carinhos que alguém oferece a alguém e só este alguém sabe quem...

Maravilha! Alguém se apossara do microfone, coisa chique demais para nosso lugarzinho encantado! Quem seria aquele estranho que sabia lidar com tão importante aparelho?

Fui prestando atenção naquela suavidade de voz, mais suave do que a chuvinha que caía...

Descobri: era o Sô Tavinho, aquele velhinho miúdo, aquele que era ator nos teatros, aquele que sabia mil poemas de cor...Nas festinhas em sua casa – e eram muitas – ele sempre recitava ( ainda existe esta palavra?) para nós...

Assentei-me na cama, minha irmã fez o mesmo. Estávamos paralisadas pela beleza do momento – ninguém ousava falar, nem com os olhos...

Por sobre nosso telhado, havia um dueto: a voz macia da chuva, a voz macia do Sô Tavinho:


DEUS ...plim..plim..plim...

Olavo plim...plim.. Bilac


Para experimentar Otávio....plim.plim..plim...

O mestre diz:plim...plim...plim...

“Já que tudo sabe, venha cá! Plim..plim...plim...
plim...plim...plim...plim...

Em que parte da extensão terrestre,
Ou da extensão celeste Deus está!”plim..plim...


Por um momento apenas fica mudo
Octávio, plim...plim...plim

e logo esta resposta dá :Plim..plim...plim...:
“Eu, senhor mestre, plim...plim... lhe daria tudo, plim...plim...
Se me dissesse plim...plim... onde é que ele não está!”plim..plim...


Plim...plim...plim...plim...plim...plim...plim...plim...plim-im-im-immmmmmmmmmmmmmmmmmmmm


Eu não sei ao certo, mas desconfio de que, essa poesia jogada à chuvinha miúda, por aquela voz cadenciada, quase chuviscando...

Eu desconfio de que, naquela noite branca da Estrela, eu tive um belo encontro com a poesia.

Acho que até combinamos de sempre estarmos por perto uma da outra.

Tudo por culpa de uma CHUVINHA FINA E A VOZ DE UM POETA SONHADOR....

terça-feira, 6 de setembro de 2016


Sobras de Férias

Maria

(Para meus netos que enfeitam meus dias de julho.)

Na esquina, o último carro dá outro  adeus para a vovó que fica desconsolada no passeio da casa vazia. Mãos se agitam nas portas do carro e eu espremo os olhos embaçados pra receber aquela saudade que já começa antes de ser...

Entro sozinha.

Reparo na casa.

Não sei por onde começo a reorganização das coisas. Olho tudo e prefiro pegar meu tricô para pôr as emoções no lugar: dois juntos, laçada, um tricô, um meia....

As laçadas fizeram um apanhado dentro de meu coração e, então, vou ajuntando algumas coisas, as  mais descombinadas  possível. Como elas estavam dentro de casa, não sei...Como no povo achava o lugar das camas, achava as meias, os tênis, juro era um milagre! Desisto. A solidão me desanima.: dois juntos, laçada....

Deixo a tarefa para o outro dia.

Segunda-feira: D. Branca, a máquina não quer bater...Era a Vani, pedindo socorro...

Desço a escada, as galinhas vêm pro portão, caladinhas, entortando a cabecinha, pensando que vou jogar mais milho...Os dois coelhinhos tremem os bigodes, crentes que vão ganhar ração, mais já estão mais do que tratados...

A máquina não vai mesmo funcionar. O cesto  derrama uma ruma de roupa e eu fico impressionada de saber que aquilo tudo se acomoda nos armários...

Resolvo rápido:

-Comadre Maria, será que a senhora pode vir lavar uma mala de roupa pra mim?

A comadre pôde. E chegou, como nos velhos tempos. Pano na cabeça, pito de palha atrás da orelha e muitas novidades,  quase aos gritos, de uma enfiada só. A casa ficou alegre, até  parecia ser outra....

Cá de cima, eu podia ouvir a Comadre cantando enquanto esfrega as roupas nas mãos, em meio a um monte de espuma que se espalhava pelo cimento , enchendo  o ar de um perfume que há muito eu não sentia: perfume de infância, de casa grande, cheia de filhos, antes da chegada da máquina de lavar.

Até uma trempe a Comadre inventou de arrumar no terreiro:

_ Tá doido, Comadre Branca, se não freuvê as roupas brancas, ninguém dá conta de tirar o chujo...

E mais isso, mais aquilo, de repente, o palco era outro: tacho na trempe, folhas de mamão na fervura, gravetos fazendo um fogo assanhado: a grama, pasto exclusivo das galinhas, ficou coberta de roupas ao sol, para clarear, Comadre...

Ah, até o batedouro antigo, que está sem serventia, ela descobriu. E plaft, plaft, plaft, a roupa apanhava em suas mãos ágeis...Enquanto batia a roupa, cantava  alto, compassado. Se a música era esperta, a roupa sofria na pedra do tanque:

 

“Nossa, nossa ,
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai, ai se eu te pego...”

 

Vani ficou entusiasmada e cantava junto, às vezes até dançando com a vassoura.

_ Que que é isso, Vani, credo fico até com vergonha do povo passar e escutar

 essa berreira... Vani finge não escutar e varria dançando, num dueto com a Comadre...

 

.

Às vezes, a lavadeira  cantava uma música mais lenta e, eu acho, até a roupa ficava romântica, e      as batidas eram lentas e delicadas: quase  uma valsa de Strauss...

 

“Meu coração, não sei por quê

Bate feliz, quando te vê...”

 

Cá dentro, Vani e eu juntávamos as coisas mais estapafúrdias dos netos: cordões, papéis, mentira, plásticos-hoje quase não se usam papéis- de salgadinhos, restos de pipoca, mil embalagens de GELADINHO, que até a vovó andou saboreando, para alegria e gozação dos netos...

O almoço foi ao som das mil novidades da Comadre: acidentes, mortes, pares separados, juntados, amigados, namoridos, um vocabulário bem moderno, com algumas palavras que nunca tinha ouvido.: NAMORIDO, por exemplo.

-Que que é isso, Comadre?

_Uai, Comadre, é mais que namorado e menos que marido...

Muito bem explicado, ela  está afiada  nos modernismos...

Varal cheio de roupas murchas – não gosto de ver roupas vazias ao vento: me dá uma tristeza desconhecida, um abandono....

Hora de apanhar as roupas. ( No tempo do BEM, ele me ajudava  nesta tarefa... ele  tirava a peça do varal, eu dobrava e punha em uma bacia grande....)

 

Noitinha, boca-da-noite...

Casa arrumada, máquina no conserto, a Comadre se foi, dando mil adeuses, mil abraços, mil promessas de voltar.

E eu fico pensando que bom seria se a máquina não tivesse conserto... Se nem um filho inventasse de me dar outra...

A comadre voltaria, ia ser tão bom, tão alegre!

Hora de fechar a casa – fico sozinha de novo, com o silêncio cantando nos cômodos vazios.

Vejo uma ponta de linha caindo do guarda-roupa, lá no alto. Vou puxando, puxando, devagarinho, devagarinho...

Dois papagaios de plástico, um rosa e outro vermelho, caíram sobre minha pobre cabeça, pousaram sobre meus ombros cansados, como asas protetoras. Desembaraço-me das linhas...São as pipas que ficaram esquecidos lá em cima, longe da confusão cá de baixo...É o novo esconderijo que o Artur, meu neto, arranjou para seus brinquedos... Um é dele, outro do Lucca, amigo que vem junto, como se fosse outro neto....

Aliás,  an passant,  os papagaios quase não saíram do lugar: o bendito computador tomou todo o tempo de meus netos aproveitarem o vento, o sol, a alegria de correr, esfolar joelhos....

Ligo a televisão.Leonardo canta:

 

“Não aprendi dizer adeus....

Não sei se vou me acostumar...”

 

Meu coração responde, concordando;

-Eu também não...

Nunca vou aprender dizer ADEUS, NUNCA...

 

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Dores do Indaiá, 27 de julho de 2016.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016


 
Queridos leitores da Maria.
 
Tenho recebido tantos recados amigos, tantos pedidos para publicação de crônicas que, acabo de postar mais algumas para vocês matarem as saudades de Dores do Indaiá, do nosso jornal, de nossos azuis e luares...
É muito bom saber que levo alegria para vocês. Afinal, semear alegria é brincar de ser mágica....
Um abraço dorense da Maria (Branca)
 
 
 
 
 
 
 
UMA CASA MINEIRA

Maria

        Com certeza!

        Mamãe controlava nossa casa com pulso mineiro. Isso quer dizer, com mil manias, mil crendices populares, mil superstições.

        Nós, a meninada, passávamos  rabiados, como dizia a madrinha Maria.

        Comida nenhuma dava certo com outra. Manga com leite, carne de porco com manga... Pepino era um  veneno e só papai.Mamãe falava que  papai era   muito topetudo, que só ele  se atrevia a comer do tal veneno! Eu ficava impressionada de ver como o meu pai era um herói: comia pepino e não morria.    Ovo era outro tendepá na casa da D. Fia. Nada dava certo com ele! E, se alguém não resistia à tentação, lá vinha a cantilena:

        _Depois de comer ovo, tem de ficar duas horas sem tomar água!

        _ Por quê?

        _Ah, porque fazia arrotar choco...

        Nossa! Jabuticaba era outro grande perigo! Dava tonteira, explicava mamãe.

        E goiaba? Jesus, quantas vezes passei vontade de comer goiaba vermelha... Porque, segundo os entendidos, era mais remosa...

        Cana, só lá pelas oito  horas da manhã, uns dois gominhos que papai colocava nas canecas esmaltadas de cada um.

        “Banana”  suspirava mamãe, de  manhã é ouro, de tarde é prata, de noite...- mamãe fazia um ar trágico e completava: de noite, MATA!

        Verdade, até hoje não sou capaz de comer uma bananinha, por mísera que seja, depois das seis horas da tarde  – hora misteriosa, boquinha da noite.... Ah, couve e repolho na janta, jamais! Isto é comida pesada, sentenciava D. Fia.

        Garapa? Nunca tomei! E o pavor de dar ataque, de sofrer sucesso, (sofrer acesso) como profetizava minha santa madrinha...

        Pipoca, a gente precisava moer nos dentes, pra não ter de alperar do alpendre...Tradução da fala da madrinha: operar do apêndice...

        _A gente não é galinha... Galinha não tem dentes, mas tem pedrinha na moela... Mamãe era entendida em apêndice, pelo que eu ouvia...(Ah, que vontade de  ser galinha e ter pedrinhas na moela, pra não ter que moer as pipocas nos dentes, pensava a menininha...)

        Falando em milho... e a bendita canjica? Dia de tormento. Bem longe da janta, mais longe ainda do banho. À noite, de jeito nenhum!

        _Tomar banho de assento depois de canjica, pode dá até congestã...

        _Ou ursa, arrematava madrinha. Ah!, gente! Até que ursa é mais fácil de falar do que úlcera, convenhamos. Só que, a avoadinha aqui, pensava que comer canjica fazia nascer uma ursa de verdade lá dentro da minha barriga, com olhos, dentes, unhas, ah, que horror – nunca comi canjica naqueles anos dourados! Só mais tarde, muito mais tarde!

        Os remédios pra dor na boca do estambo (estômago) eram os piores que já vi: chá de amor-deixado, chá de folha-de-mamão, chá de boldo, marcela e até chá de cinza de fogão. Era só esperar a cinza assentar no fundo da xicra...

        Ah, havia uma xícara famosa, - a CHAVA – (chávena) que só faltava  matar a gente, pelo tamanho, pelo conteúdo, quase sempre amargo, com gosto de remédio para bicho (se bem, que, naquele tempo, bicho nenhum  tomava remédio...)

        _ Toma a CHAVA toda, minina. Se não arresorvê, tem de tomá o BUSCAPÃO (Buscopan)...

        Mas, o melhor de todos os remédios –o  abençoado- era o tal de purgante de cramelano (graças a Deus, nem sei como se escreve o bendito purgante...)

        Banho, outro tutu lá de casa... Só depois de três horas do cumê, dizia toda a Estrela...  E, no quarto fechado, pra evitar as correntezas, pra não istuporá.

        _ Já vi um home que virou a cara pra trás, porque istuporô....

        _É... ele tomou banho de assento e saiu              no sereno da boca da noite...

        Outras pérolas da CASA MINEIRA, onde vivi, entre mil cuidados e carinhos. E da qual, milagrosamente, escapei de tanto perigo.

        _ Olhar no espelho depois da comida, de jeito nenhum!

        _Tirar bicho-do-pé, também na hora fatídica, era um perigo : dá teto! (tétano)

        _ Cortar unhas, credo em cruz (Claro, depois da comida...)

        Correr, sair no sol, deitar de bruço, lavar roupa, molhar os pés, nada, nadinha disso, a gente podia fazer depois do cumê, dizia a Estrela toda!

        Ler, depois da comida, também era um Deusoliveguarde!...

        E a madrinha Maria contava um causo que arrancava admiração da plateia: nós, a meninada... “Um cumpade da mãe comeu, garrolê e...oh, ( madrinha fazia o sinal da cruz, tadinha!) foi pro bico do urubu!

        E eu, sonsinha, pensava que garrolê era uma comida chique, de outro lugar, quem sabe de outro mundo, japonesa, sei lá...

        Graças a Deus, lá em casa, nos salvamos de um remédio pra defruxo (defluxo, resfriado...) receitado pelos mais velhos para curar todos os males do peito, chiados, asma...Grande parte dos meninos estrelenses se lambuzava o dia todo, com um pedaço de toucinho cru, passado no sal grosso......

        _É bom pra untá os peito, falava a sabedoria da madrinha Maria...

        Ah, meu Deus! Escapei! Estou viva!

        Só não escapei da saudade...E, pra isso, não há remédio...

        Vivo com o coração carregadinho de saudades daquela casa mineira.

         Com certeza!

 

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        Dores do Indaiá, 7 de maio de 1997.