segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

BICO DE PÃO

 

BICO DE PÃO

 

Maria

 

(Para minha avó Christina, que fabricou a lembrança mais antiga- e mais doce – que tenho do Natal)

 

 

         Para mim, as lembranças mais antigas são passes de magia, são arte(manhas) de fadas, são riscos azuis de voos de anjos. De vez em quando, eles batem asas no fio de minhas saudades e me carregam nas suas asas; Donos do infinito, anjos e fadas não escolhem lugar para um descanso. Pousam aqui, pousam ali, em qualquer saudade – nova ou antiga.

         Pois então. Um anjo esbarrou/esvoaçou no infinito de minhas lembranças e... sem mais nem menos...

        

         Uma menininha de três, quatro anos, talvez...

         Uma cozinha antiga amanhecendo,  a sapata de um fogão a lenha – com remendos novos no cimento velho... a boca preta do fogão cuspindo  fumaça e labaredas que dançavam sob a chapa de ferro... A tampa de  um caldeirãozinho alegre balançava e cantava na cozinha, encantando os olhos da menininha: o feijão do almoço perfumava o ar com um cheiro de Deus.

         Uma porta entreaberta, por onde entrava um friozinho matinal, um frio cheio  de fiapos da noite que ainda não acabara de acordar. Com certeza, o orvalho ainda reinava na manhã sonolenta  -o sol  preguiçoso nem conseguira apagar as sombras... A casa, o quintal, tudo tentava abrir os olhos para aquela manhã fria e rendada.

         Pela porta entreaberta, a figura de minha avó chegou junto com a sombra  que se desenhou no chão. A menininha percebeu que a  avó estava feliz. Na mão, um punhado de cebolinhas orvalhadas e mais um ramo de salsas que acabavam de sair do banho, porque seus cabelos verdes também estavam bentos pela manhã rebordada de fios da aurora. O inusitado buquê dava à vovó Christina um ar de noiva. Uma noiva pintada em sépia...

         Aquele anjo esvoaçou em minhas saudades/lembranças e não me lembrou palavras: a cena  seria uma pintura, um filme do cinema mudo. A noiva não disse nada – apenas entrou pela porta, anunciada pela sombra esguia.

         Com outro gesto brando, depositou o seu original buquê de noiva em um prato de louça branca, onde tomates minúsculos nadavam em água fresca.

         Senti que era Natal: o cheiro da manhã molhada de chuva, a paz   estampada no rosto sereno de minha avó, vozes cantando na Igreja ao lado, tudo fazia a menininha sentir que era Natal...

         _ Que música era aquela?

         Meu coração responde: NOITE FELIZ...

         Claro, era Natal!

         O momento mágico -  que aquela manhã fabricou – ficou nas retinas da menininha: a avó derramando o café ralo e docinho num bico de pão para sua neta – um momento único para as duas... A caneca  azul/esmaltada onde  florinhas brancas sorriam para a manhã. O cheiro doce se espalhando pela casa silenciosa.. Cheiro de céu, cheiro de Deus...

 

         Ah, em 2005, em anjo/poeta deveria entrar por minha porta... Deveria  arranjar uma noiva etérea, com um buquê de salsas e cebolinhas. Arranjar um prato/lago, onde tomatinhos molhassem a carinha vermelha na água pura.

Deveria  arranjar um pão antigo, um pão de bico/um bico de pão, bem torradinho, verdadeiro seio onde a menina sugava a paz.

         Ah, eu queria uma Igrejinha cantando perto, eu queria o encantamento daquele  instante  mágico...

         Ah, eu queria um    bico de pão, com café bem ralinho, com gosto de Natal-menino.

         Ah, eu queria uma porta entreaberta por onde surgisse uma sombra com o rosto de minha avó...

 

         Porque... hoje em dia, o pãozinho de sal não tem magia e a menina antiga perdeu o seio da PAZ...

        

         Natal de 2005 – Dores do Indaiá.

          

Um comentário:

  1. Ah, meu Deus, uma verdadeira obra prima vestida de saudades e de memórias cheias de afeto! Como é bom ler-te!

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