segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

LI(N)DONETA

 

LI(N)DONETA

 

Maria

 

 

O nome dela era LIDONETA.  Hoje, eu a chamaria de LINDONETA...

_Por quê?

Porque ela era linda, lin – in –in -da!

E pensar que eu nunca lhe falei isso, assim, com a alma debruçada em meu olhar...

Ela está junto com outras palavras e gestos calados dentro do meu coração.

Pensar, eu pensei...

Mas descobri, há muito tempo, que só pensar não atravessa a terra, muros e paredes.

Por isso, escrevo contando sobre meus afetos.   Para que o vento as leve até onde elas precisam ir.

Eu queria chegar na casa pobre da Lidoneta, com um ar de festa no rosto, um ar de gratidão na minha fala, diferente das outras vezes.

Quem sabe, levaria um ramo de flores para ela – coisa desusada naquela época – talvez ela não entendesse meu gesto...

Quem sabe, eu chegaria com um corte de chita ramada para enfeitar seu corpo magro e cansado, quem sabe?

Assim, um pano diferente, bordado da luz dos meus olhos, uma luz diferente da que ela viu tantas vezes... Quem sabe?

Quem sabe, eu escreveria seu nome, com a letra mais bonita que eu pudesse escrever, só para ver seu olhar de admiração, aquele olhar que se encantava com qualquer gesto meu.... Quem sabe?

Talvez ela me contasse uma das histórias antigas que eu gostava tanto de ouvir, ou contava casos de minha mãe e de meu pai, casos que me ajudavam a compor  a história de minha infância, num tempo em que não me lembro, tão  pequena eu era...

 

“Era lá no Quartele de São João, ela falava com sua linguagem simples... Seu pai tinha uma venda... Era pertinho da Capelinha... Ele ia pro garimpo ... Pegava muita pedrinha miúda... Não  valia nada... Dia de missa, sempre dava briga, com tiro de espingarda, os homens disparados nos cavalos bravos... Sua mãe tinha tanto medo, que entrava debaixo da cama com nóis tudo... Nem na cozinha ela deixava a gente ir... Nóis comia bolacha da venda, até passá o tiroteio... Um dia, eu caí da rede, bati a cabeça na parede, fiquei sem fala... Sua mãe pôs uma colher no galo – deste tamanho – A Dooneta mostrava a testa ossuda e magra.   Eu ouvia as histórias, como se não fizesse parte delas, por ser tudo tão longe, tão distante, num cenário que nunca vira...

Eu morava com eze, inté casá... Depois, fiquei só lavando roupa pra fora... Quando ocê nasceu, de tão branca, era até transparente... O leite de sua mãe era raco, eu tinha acabado de ganhar a Dora... Então, dava de mamá pras duas... E ria , como se me devesse mil favores, toda cheia de mesuras para com a filha que , também recebera o nome de Maria das Dores, prucausa de Nossa Senhora das Dores, a que ocê gosta de falá que é a Santa Azul... Ocê com suas escrita ... Há – há – há!!! Eu queria que  eze chamasse ocê era de Dorinha, pruquê a minha ficou sendo Dora... E ria de felicidade!”  

 

Agora, não há mais tempo de eu falar com a Doneta – minha mãe-lavadeira, que eu a batizei de Lindoneta, porque a achava linda em sua simplicidade, em sua memória para contar histórias...

Quem sabe, eu herdei dela, de minha mãe-de-leite, essa mania de contar pro mundo todos os meus amores, todos os meus afetos, todas as minhas alegrias e tristezas?

Mas, eu queria chegar lá, num dia diferente, com um olhar diferente, cheio de luz, com bordados de nuvens em meu sorriso, com flores lindas para ela...

Eu queria lhe dizer:

_ Doneta, eu acho você linda!  Para mim, seu nome é LINDONETA...

E  ela riria de mim, achando que era meio boboquinha, com essa mania de contar histórias do meu coração para o vento levar...

Tomara que o vento encontre o caminho da casa da Doneta, lá no meio das nuvens, balançando numa rede, dando  seu leite bom para criar mil anjinhos.

 _Tomara!

 

 

 

 

(Essa história é para a Doneta- lavadeira, minha mãe-de-leite que, tenho certeza, iria morrer de vergonha de ver seu nome no jornal...)

 

   Dores do Indaiá, 15 de maio, mês das Mães, de 2009.

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