LI(N)DONETA
Maria
O
nome dela era LIDONETA. Hoje, eu a
chamaria de LINDONETA...
_Por
quê?
Porque
ela era linda, lin – in –in -da!
E
pensar que eu nunca lhe falei isso, assim, com a alma debruçada em meu olhar...
Ela
está junto com outras palavras e gestos calados dentro do meu coração.
Pensar,
eu pensei...
Mas
descobri, há muito tempo, que só pensar não atravessa a terra, muros e paredes.
Por
isso, escrevo contando sobre meus afetos.
Para que o vento as leve até onde elas precisam ir.
Eu
queria chegar na casa pobre da Lidoneta, com um ar de festa no rosto, um ar de
gratidão na minha fala, diferente das outras vezes.
Quem
sabe, levaria um ramo de flores para ela – coisa desusada naquela época –
talvez ela não entendesse meu gesto...
Quem
sabe, eu chegaria com um corte de chita ramada para enfeitar seu corpo magro e
cansado, quem sabe?
Assim,
um pano diferente, bordado da luz dos meus olhos, uma luz diferente da que ela
viu tantas vezes... Quem sabe?
Quem
sabe, eu escreveria seu nome, com a letra mais bonita que eu pudesse escrever,
só para ver seu olhar de admiração, aquele olhar que se encantava com qualquer
gesto meu.... Quem sabe?
Talvez
ela me contasse uma das histórias antigas que eu gostava tanto de ouvir, ou
contava casos de minha mãe e de meu pai, casos que me ajudavam a compor a história de minha infância, num tempo em
que não me lembro, tão pequena eu era...
“Era lá no Quartele de
São João, ela falava com sua linguagem simples... Seu pai tinha uma venda...
Era pertinho da Capelinha... Ele ia pro garimpo ... Pegava muita pedrinha
miúda... Não valia nada... Dia de missa,
sempre dava briga, com tiro de espingarda, os homens disparados nos cavalos
bravos... Sua mãe tinha tanto medo, que entrava debaixo da cama com nóis
tudo... Nem na cozinha ela deixava a gente ir... Nóis comia bolacha da venda,
até passá o tiroteio... Um dia, eu caí da rede, bati a cabeça na parede, fiquei
sem fala... Sua mãe pôs uma colher no galo – deste tamanho – A Dooneta mostrava
a testa ossuda e magra. Eu ouvia as
histórias, como se não fizesse parte delas, por ser tudo tão longe, tão
distante, num cenário que nunca vira...
Eu morava com eze, inté
casá... Depois, fiquei só lavando roupa pra fora... Quando ocê nasceu, de tão
branca, era até transparente... O leite de sua mãe era raco, eu tinha acabado
de ganhar a Dora... Então, dava de mamá pras duas... E ria , como se me devesse
mil favores, toda cheia de mesuras para com a filha que , também recebera o
nome de Maria das Dores, prucausa de Nossa Senhora das Dores, a que ocê gosta
de falá que é a Santa Azul... Ocê com suas escrita ... Há – há – há!!! Eu
queria que eze chamasse ocê era de
Dorinha, pruquê a minha ficou sendo Dora... E ria de felicidade!”
Agora,
não há mais tempo de eu falar com a Doneta – minha mãe-lavadeira, que eu a
batizei de Lindoneta, porque a achava linda em sua simplicidade, em sua memória
para contar histórias...
Quem
sabe, eu herdei dela, de minha mãe-de-leite, essa mania de contar pro mundo
todos os meus amores, todos os meus afetos, todas as minhas alegrias e
tristezas?
Mas,
eu queria chegar lá, num dia diferente, com um olhar diferente, cheio de luz,
com bordados de nuvens em meu sorriso, com flores lindas para ela...
Eu
queria lhe dizer:
_
Doneta, eu acho você linda! Para mim,
seu nome é LINDONETA...
E ela riria de mim, achando que era meio
boboquinha, com essa mania de contar histórias do meu coração para o vento
levar...
Tomara
que o vento encontre o caminho da casa da Doneta, lá no meio das nuvens,
balançando numa rede, dando seu leite
bom para criar mil anjinhos.
_Tomara!
(Essa
história é para a Doneta- lavadeira, minha mãe-de-leite que, tenho certeza,
iria morrer de vergonha de ver seu nome no jornal...)
Dores do Indaiá, 15 de maio, mês das Mães,
de 2009.
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