segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

BELA CONJUGAÇÃO

 

BELA CONJUGAÇÃO

Maria

 

                Carlinhos, estou ligando, ligando e... nada!

                Mas, enfim, envio-lhe o   meu abraço por estas vias modernas: só Deus sabe como meu afeto chega até aí...
                Imagino o infinito cheio de recados, risadas, emoções, tudo isso derramado no azul...
Feliz Natal Carlinhos! Feliz 2012!   Os enfeites das palavras ficam por conta   da   beleza do dia, da suavidade das lembranças. 
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                Então, ressurge o Dr. Carlos Alberto Diniz Silva, a quem ainda chamo de Carlinhos, por obra e graça do tempo estrelado, quando fui sua professora no 4º ano...

                Tudo que me vem dele é brilhante, artístico, surpreendente!

                Seu presente de Natal me levou para tempos que estão guardados na minha Arca de Tesouros.

            “Carlinhos, passada a primeira linda surpresa de ver você na tela, depois de assimilar as danças, cores, deposito naquela imensa mesa vazia  -bem ao alcance de suas mãos que esperam - a ESPERANÇA, aquela que Pandora esqueceu de fechar na caixa mágica, como você encerrou sua mensagem...”

                Ah, Carlinhos, fiquei benta com sua lembrança...Como presente, envio-lhe a crônica   NOVA MORADA - aí estou, com minhas saudades e lembranças, buscando refúgio onde não sei vou encontrar...
              “Natal –palavra...  Dentro dela,  quem sabe, só dentro dela,  o mundo  encontraria a essência de viver. Meu coração acredita na força dessa palavra-vida   que sabe fabricar a paz sonhada por todos os tempos.”(Fragmento  de Nova Morada)

            Um Natal estrelado (Estrelado de Indaiás) para seu coração que continua terno e  amigo.

                 O aluno-doutor me responde:

              “Você me manda uma coisa linda como essa e não quer acreditar que eu te eleja como ícone. Só os literatos como você podem amar uma palavra pela palavra. Considero sua crônica um hino de amor à palavra escrita. Se a escolhida foi Natal é mero pretexto. Adoro metalinguagem. Posso te dizer que você já mora dentro das palavras. Tenho verdadeiro fascínio pelas palavras, pelo escrito. Palavra é algo quase sagrado para mim .”

                Ele tocou em PALAVRA   - um de meus  maiores encantamentos. Daí....

                “Nossa, pensei que ninguém ia entender o quê eu queria dizer e você foi além... Por isso, gosto tanto de conversar com meu aluno... Você me enriquece, me adivinha... Eu amo a palavra, amo! Acredito na sua força, no seu magnetismo, na sua sonoridade.”

                Carlinhos e eu  continuamos nossas aulas – agora ele é o professor –e fico orgulhosa de descobrir que ele (a)prendeu os caminhos da POESIA, tão suavemente delineados em um tempo mágico. Até então, éramos todos poetas – habitávamos a mesma morada...uma estrela...  Alguns ofereceram o coração para  a POESIA fazer sua morada e ressurgisse cada vez mais bela. Carlinhos foi um deles.

                  Ele me disse que escolheu o curso de Medicina influenciado por minhas aulas de Ciências... Eu finjo acreditar... A professorinha levava material moderno para suas aulas, querendo aplicar o quê aprendera no Instituto de Educação de Minas Gerais: coração de boi, comprado no açougue do Ladislau... Um barbante azul fazia os caminhos da grande circulação e outro –vermelho – mostrava a  pequena circulação...  Uma galinha de nossos quintais verdes e perfumados - para ser aberta e dissecada pelos alunos: nervos, pele, movimentos dos membros da galinha – tudo era motivo de grandes descobertas para nós. A turma voava com a imaginação da professorinha. E a professorinha voava com o encantamento dos alunos.                                                                

                 As aulas sobre POESIA eram outro motivo de emoção para  a professora romântica - e para os aluninhos, ávidos do encontro com a beleza. O poema A FONTE E A FLOR (Vicente de Carvalho) nos  levou a uma  sessão  de lágrimas e emoção... Enquanto a florzinha ia se despedindo, nós chorávamos comovidos...“Deixa-me, fonte,/ dizia a  flor, tonta de terror/e a fonte  rápida e fria/Cantava  levando a  flor”.

                 Intelectual por excelência, ele entende de palavras como poucos. Cultiva a metalinguagem e, em uma conversa recente, confessa que:

            “Em tempo, o conto do Guimarães Rosa "Ave palavra" também é um declaração de amor às palavras. Eu tenho uma coisa com palavra que talvez você também tenha. Quando estou enamorado de uma palavra (nem precisa ser um neologismo nem palavra recém-descoberta) fico louco para escrever algo só pra poder encaixá-la. Fico caminhando e bolando uma história, até que ela se encaixe redondinha, como se estivesse besuntada de manteiga. Eu só consigo escrever se tiver uma palavra que dê início ao processo. As boas ideias quase nunca resultam em nada. Tem palavras que eu não gosto. Nem sei a razão. Varejão, por exemplo. Me dá arrepio, acho que me lembra mosca varejeira. Algumas palavras entram no meu agrado e depois saem sem que eu perceba. Outras ficam pelo resto da vida. Alvorecer, por exemplo.”

                 E eu fiquei mais bento ainda com a manifestação da pessoa que mais admiro e gosto no mundo.

                Carlinhos, eu também me enamoro de palavras - às vezes é paixão duradoura, outras vezes, passa rápido... Detesto: cônjuge - parabenizo - em prol – e outras...Adoro: Aurora - lâmpada - estrela, morada - esperança - passos - caminhos...

                O tecido poético entre professora e aluno continua e ele

                Temos um ponto em comum no namoro das palavras: eu, alvorecer; você, aurora... Bela conjugação: Aurora - lâmpada - estrela, morada - esperança - passos - caminhos... (Minha morada é a esperança e vou seguindo seus passos nos caminhos iluminados pela lâmpada  iridescente da precoce aurora).

                A  sineta bate... Terminou a aula . A  professora ajunta  os cadernos...   Enquanto isso, Carlinhos,  fique com a nova conjugação de verbos - que descobrimos pela POESIA!  

                Eu auroro / Tu alvoreces / Nós estrelamos...

 

                Imagino o infinito cheio de recados, risadas, emoções, tudo isso derramado no azul...

 

                       Dores do Indaiá, 5 de janeiro de 2012

 

Um comentário:

  1. Fiquei “benta” com tanta lindeza, com tanto amor no discurso da professora e do aluno! Adorei ler-te, dona Branca!

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