BELA CONJUGAÇÃO
Maria
Carlinhos, estou ligando,
ligando e... nada!
Mas, enfim, envio-lhe o meu abraço por
estas vias modernas: só Deus sabe como meu afeto chega até aí...
Imagino o infinito cheio
de recados, risadas, emoções, tudo isso derramado no azul...
Feliz Natal Carlinhos! Feliz 2012! Os enfeites das palavras ficam
por conta da beleza do dia, da suavidade das
lembranças.
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Então,
ressurge o Dr. Carlos Alberto Diniz Silva, a quem ainda chamo de Carlinhos, por
obra e graça do tempo estrelado,
quando fui sua professora no 4º ano...
Tudo
que me vem dele é brilhante, artístico, surpreendente!
Seu
presente de Natal me levou para tempos que estão guardados na minha Arca de
Tesouros.
“Carlinhos, passada a primeira linda surpresa de ver você na tela, depois de assimilar as danças, cores, deposito naquela imensa mesa vazia -bem ao alcance de suas mãos que esperam - a ESPERANÇA, aquela que Pandora esqueceu de fechar na caixa mágica, como você encerrou sua mensagem...”
Ah, Carlinhos,
fiquei benta com sua lembrança...Como presente, envio-lhe a
crônica NOVA MORADA - aí estou, com minhas saudades e
lembranças, buscando refúgio onde não sei vou encontrar...
“Natal
–palavra... Dentro dela, quem sabe, só dentro dela, o mundo
encontraria a essência de viver. Meu coração acredita na força dessa
palavra-vida que sabe fabricar a paz
sonhada por todos os tempos.”(Fragmento
de Nova Morada)
Um Natal estrelado (Estrelado de Indaiás)
para seu coração que continua terno e
amigo.
O aluno-doutor me responde:
Ele tocou em PALAVRA - um de meus maiores encantamentos. Daí....
“Nossa,
pensei que ninguém ia entender o quê eu queria dizer e você foi além... Por
isso, gosto tanto de conversar com meu aluno... Você me enriquece, me adivinha...
Eu amo a palavra, amo! Acredito na sua força, no seu magnetismo, na sua
sonoridade.”
Carlinhos e eu continuamos nossas aulas – agora ele é o
professor –e fico orgulhosa de descobrir que ele (a)prendeu os caminhos da
POESIA, tão suavemente delineados em um tempo mágico. Até então, éramos todos poetas
– habitávamos a mesma morada...uma estrela...
Alguns ofereceram o coração para a POESIA
fazer sua morada e ressurgisse
cada vez mais bela. Carlinhos foi um deles.
Ele
me disse que escolheu o curso de Medicina influenciado por minhas aulas de
Ciências... Eu finjo acreditar... A professorinha levava material moderno para
suas aulas, querendo aplicar o quê aprendera no Instituto de Educação de Minas
Gerais: coração de boi, comprado no açougue do Ladislau... Um barbante azul
fazia os caminhos da grande circulação e outro –vermelho – mostrava a pequena circulação... Uma galinha de nossos quintais verdes e
perfumados - para ser aberta e dissecada pelos alunos: nervos, pele, movimentos
dos membros da galinha – tudo era motivo de grandes descobertas para nós. A
turma voava com a imaginação da professorinha. E a professorinha voava com o
encantamento dos alunos.
As aulas sobre POESIA eram outro motivo de emoção para a professora romântica - e para os aluninhos, ávidos do encontro com a beleza. O poema A FONTE E A FLOR (Vicente de Carvalho) nos levou a uma sessão de lágrimas e emoção... Enquanto a florzinha ia se despedindo, nós chorávamos comovidos...“Deixa-me, fonte,/ dizia a flor, tonta de terror/e a fonte rápida e fria/Cantava levando a flor”.
Intelectual por excelência, ele entende de palavras como poucos. Cultiva a metalinguagem e, em uma conversa recente, confessa que:
“Em tempo, o conto do Guimarães Rosa
"Ave palavra" também é um declaração de amor às palavras. Eu tenho uma coisa com palavra que talvez
você também tenha. Quando estou enamorado de uma palavra (nem precisa ser um
neologismo nem palavra recém-descoberta) fico louco para escrever algo só pra
poder encaixá-la. Fico caminhando e bolando uma história, até que ela se
encaixe redondinha, como se estivesse besuntada de manteiga. Eu só consigo
escrever se tiver uma palavra que dê início ao processo. As boas ideias quase
nunca resultam em nada. Tem palavras que eu não gosto. Nem sei a razão. Varejão, por exemplo. Me dá arrepio, acho que me lembra mosca
varejeira. Algumas palavras entram no meu agrado e depois saem sem que eu
perceba. Outras ficam pelo resto da vida. Alvorecer, por exemplo.”
E eu fiquei mais bento ainda com a
manifestação da pessoa que mais admiro e gosto no mundo.
Carlinhos, eu também me enamoro de palavras - às vezes é
paixão duradoura, outras vezes, passa rápido... Detesto: cônjuge - parabenizo - em prol – e outras...Adoro: Aurora - lâmpada - estrela, morada - esperança - passos - caminhos...
O
tecido poético entre professora e aluno continua e ele
Temos um ponto em comum no namoro das palavras: eu, alvorecer; você, aurora... Bela conjugação: Aurora - lâmpada - estrela, morada - esperança - passos - caminhos... (Minha morada é a esperança e vou seguindo seus passos nos caminhos iluminados pela lâmpada iridescente da precoce aurora).
A sineta bate... Terminou a aula . A professora ajunta os cadernos... Enquanto isso, Carlinhos, fique com a nova conjugação de verbos - que
descobrimos pela POESIA!
Eu
auroro / Tu alvoreces / Nós estrelamos...
Imagino
o infinito cheio de recados, risadas, emoções, tudo isso derramado no azul...
Dores do Indaiá, 5 de janeiro de 2012