BICO DE PÃO
Maria
(Para
minha avó Christina, que fabricou a lembrança mais antiga- e mais doce – que
tenho do Natal)
Para mim, as lembranças mais antigas
são passes de magia, são arte(manhas) de fadas, são riscos azuis de voos de
anjos. De vez em quando, eles batem asas no fio de minhas saudades e me
carregam nas suas asas; Donos do infinito, anjos e fadas não escolhem lugar
para um descanso. Pousam aqui, pousam ali, em qualquer saudade – nova ou
antiga.
Pois então. Um anjo esbarrou/esvoaçou
no infinito de minhas lembranças e... sem mais nem menos...
Uma
menininha de três, quatro anos, talvez...
Uma cozinha antiga amanhecendo, a sapata de um fogão a lenha – com remendos
novos no cimento velho... a boca preta do fogão cuspindo fumaça e labaredas que dançavam sob a chapa
de ferro... A tampa de um caldeirãozinho
alegre balançava e cantava na cozinha, encantando os olhos da menininha: o
feijão do almoço perfumava o ar com um cheiro de Deus.
Uma porta entreaberta, por onde entrava um friozinho
matinal, um frio cheio de fiapos da
noite que ainda não acabara de acordar. Com certeza, o orvalho ainda reinava na
manhã sonolenta -o sol preguiçoso nem conseguira apagar as sombras...
A casa, o quintal, tudo tentava abrir os olhos para aquela manhã fria e rendada.
Pela porta entreaberta, a figura de minha avó chegou junto
com a sombra que se desenhou no chão. A
menininha percebeu que a avó estava
feliz. Na mão, um punhado de cebolinhas orvalhadas e mais um ramo de salsas que
acabavam de sair do banho, porque seus cabelos verdes também estavam bentos
pela manhã rebordada de fios da aurora. O inusitado buquê dava à vovó Christina
um ar de noiva. Uma noiva pintada em sépia...
Aquele anjo esvoaçou em minhas saudades/lembranças e não me
lembrou palavras: a cena seria uma
pintura, um filme do cinema mudo. A noiva não disse nada – apenas entrou pela
porta, anunciada pela sombra esguia.
Com outro gesto brando, depositou o seu original buquê de
noiva em um prato de louça branca, onde tomates minúsculos nadavam em água
fresca.
Senti que era Natal: o cheiro da manhã molhada de chuva, a
paz estampada no rosto sereno de minha
avó, vozes cantando na Igreja ao lado, tudo fazia a menininha sentir que era
Natal...
_ Que música era aquela?
Meu coração responde: NOITE FELIZ...
Claro, era Natal!
O momento mágico -
que aquela manhã fabricou – ficou nas retinas da menininha: a avó
derramando o café ralo e docinho num bico de pão para sua neta – um momento
único para as duas... A caneca
azul/esmaltada onde florinhas
brancas sorriam para a manhã. O cheiro
doce se espalhando pela casa silenciosa.. Cheiro de céu, cheiro de
Deus...
Ah, em 2005, em anjo/poeta deveria
entrar por minha porta... Deveria arranjar
uma noiva etérea, com um buquê de salsas e cebolinhas. Arranjar um prato/lago,
onde tomatinhos molhassem a carinha vermelha na água pura.
Deveria
arranjar um pão antigo, um pão de
bico/um bico de pão, bem torradinho, verdadeiro seio onde a menina sugava a
paz.
Ah, eu queria uma Igrejinha cantando
perto, eu queria o encantamento daquele
instante mágico...
Ah, eu queria um bico de pão, com café bem ralinho, com
gosto de Natal-menino.
Ah, eu queria uma porta entreaberta por
onde surgisse uma sombra com o rosto de minha avó...
Porque... hoje em dia, o pãozinho de
sal não tem magia e a menina antiga perdeu o seio da PAZ...
Natal de 2005 – Dores do Indaiá.
Ah, meu Deus, uma verdadeira obra prima vestida de saudades e de memórias cheias de afeto! Como é bom ler-te!
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