segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

BANCO DE AFETOS

 

BANCO DE AFETOS

 

 

Maria

 

 

         A vida toda me vigiei contra a porta escancarada do banco de afetos que me colocaram no peito.  Sem sucesso...

         Em matéria de afeto, sou uma escrava dos menores gestos: um sorriso desconhecido – numa esquina qualquer – me comove muito e tenho vontade de  agradecer em voz alta: Deus lhe pague! Um abraço antigo – com gosto de infância, me põe feliz  por dias e dias...

         Se estou  querendo ficar com  cara de idosa,  lá vem um telefonema de uma noivinha querendo minha letra desenhada nos envelopes e... adeus, vovó! Fico mocinha também, só por causa daquelas tintas, daqueles arabescos, daquela lista de nomes e daquela espera  - sem querer, também espero o  dia tão sonhado!

         Quando estou quase ficando velhota de verdade, lá vem um neto querendo uma frase bonita, um título diferente para um trabalho, adeus, tristeza!

         Se a tristeza está quase me pegando no esconde-esconde da vida, corro ao meu banco de afetos, tiro de lá mil poemas escolhidos, canto trechos de serestas, recordo-me de bailes antigos, reescrevo a história de amor que escrevi a quatro mãos com o meu BEM e...adeus vovó!

         Fim de ano sempre me dá uma solidãozinha, sempre me dá uma tristezinha que, aos poucos, espanto com os lacinhos vermelhos de minha árvore de Natal, com a velha guirlanda que eu fiz há muitos anos e    que, ainda, enfeita a minha porta.  Nunca faço novos enfeites – uso os mesmos para dar aquele ar de que tudo continua como era.  Afinal, no meu coração, Natal é isso: certeza de que tudo está só guardado e embrulhado, que é  só desfazer os laços, tirar tudo do banco de afetos  e começar outro ano.

         Surpreendo o olhar de meus filhos ao verem os mesmos enfeites que atravessaram o tempo: pelo menos, aqui, ele parou  e eles têm a impressão de que tudo está igual, apesar dos cabelos que continuam grisalhando, apesar de seus filhos já estarem em Faculdades , construindo outras esperanças, apesar de que ....

         É com o meu banco de afetos que espero o novo ano chegar: lá estão os pedaços  mais ternos de  minha vida. Foi com eles que cheguei até aqui, embalada por um passado singelo, cheio de rostos queridos, de vozes encantadas, de olhares iluminados por luzes infinitas. Foi com essa vidinha que construí meu presente , cheio de  Deus, cheio de lembranças bonitas, cheio de afetos.

         O afeto é mágico, pois (re)úne pessoas distantes, transforma velhos-amigos-velhos em crianças iluminadas pela certeza de  que haveria  um ano-bom e  haveria esperanças...

 Criança  como eu fui um dia,  agasalhada nas doces asas de minha casa amarela de Estrela. Como ainda sou, agasalhada nas asas de minha casa de vó que prepara o presépio como quem prepara o futuro para meus filhos ,

 netos e, agora, com o encantamento que tenho com meus dois bisnetos, Isadora e João Pedro...

É o meu banco de afetos que enfeita a nossa  mesa de trabalho com um calendário novo, onde o novo ano  me abraça e espera minhas palavras novas...      Olho o calendário novo - os doze meses - que me farão companhia- me esperam.  Nós nos olhamos como dois conhecidos antigos, sabendo que estaremos juntos, outra vez.  Não tenho medo do novo ano, porque estou segura junto às riquezas que armazenei em meu banco de afetos... Riquezas que vou tirando, aos poucos, como contas de um rosário que rezo devagarinho, nas horas de chuva brava, nas horas de pequenas solidões e algumas horas tristinhas.

         Meu banco de afetos nunca me deixa na mão, porque ele foi fabricado com pequenas coisas preciosas que recolhi   e guardei em meus caminhos: um olhar amigo, um abraço do meu BEM, uma risada de um neto, uma gracinha dos bisnetos, uma oração que minha mãe me ensinou, uma carta de meu pai, lembranças e saudades guardadas  junto com   as esperanças renovadas, pelo carinho dos que vieram depois de mim e pela  fé em um tempo melhor, como o a alegria do Natal me indica.

          Sem falar que, a chavinha mágica do meu banco está guardada em um lugar bonito de minha alma  e que  posso abri-lo ao menor gesto de emoção:  um sorriso-amigo encontrado em uma esquina,  um canteiro de jardim um entardecer de minha terra,  uma igreja que canta para mim na voz de seus sinos de bronze...

         Pois é. Tenho uma chavinha mágica que me faz feliz a qualquer hora, em qualquer lugar.   E, pra que mais?

         _ Pra quê?

 

         Dores do Indaiá, 21 de dezembro de 2024

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