BANCO DE AFETOS
Maria
A vida toda me vigiei contra a porta
escancarada do banco de afetos que me colocaram no peito. Sem sucesso...
Em matéria de afeto, sou uma escrava
dos menores gestos: um sorriso desconhecido – numa esquina qualquer – me comove
muito e tenho vontade de agradecer em
voz alta: Deus lhe pague! Um abraço antigo – com gosto de infância, me põe
feliz por dias e dias...
Se estou querendo ficar com cara de idosa, lá vem um telefonema de uma noivinha querendo
minha letra desenhada nos envelopes e... adeus, vovó! Fico mocinha também, só
por causa daquelas tintas, daqueles arabescos, daquela lista de nomes e daquela
espera - sem querer, também espero
o dia tão sonhado!
Quando estou quase ficando velhota de
verdade, lá vem um neto querendo uma frase bonita, um título diferente para um
trabalho, adeus, tristeza!
Se a tristeza está quase me pegando no
esconde-esconde da vida, corro ao meu banco de afetos, tiro de lá mil poemas
escolhidos, canto trechos de serestas, recordo-me de bailes antigos, reescrevo
a história de amor que escrevi a quatro mãos com o meu BEM e...adeus vovó!
Fim de ano sempre me dá uma
solidãozinha, sempre me dá uma tristezinha que, aos poucos, espanto com os
lacinhos vermelhos de minha árvore de Natal, com a velha guirlanda que eu fiz
há muitos anos e que, ainda, enfeita a
minha porta. Nunca faço novos enfeites –
uso os mesmos para dar aquele ar de que tudo continua como era. Afinal, no meu coração, Natal é isso: certeza
de que tudo está só guardado e embrulhado, que é só desfazer os laços, tirar tudo do banco de
afetos e começar outro ano.
Surpreendo o olhar de meus filhos ao
verem os mesmos enfeites que atravessaram o tempo: pelo menos, aqui, ele
parou e eles têm a impressão de que tudo
está igual, apesar dos cabelos que continuam grisalhando, apesar de seus filhos
já estarem em Faculdades , construindo outras esperanças, apesar de que ....
É com o meu banco de afetos que espero
o novo ano chegar: lá estão os pedaços
mais ternos de minha vida. Foi
com eles que cheguei até aqui, embalada por um passado singelo, cheio de rostos
queridos, de vozes encantadas, de olhares iluminados por luzes infinitas. Foi
com essa vidinha que construí meu presente , cheio de Deus, cheio de lembranças bonitas, cheio de
afetos.
O afeto é mágico, pois (re)úne pessoas
distantes, transforma velhos-amigos-velhos em crianças iluminadas pela certeza
de que haveria um ano-bom e haveria esperanças...
Criança como eu fui um dia, agasalhada nas doces asas de minha casa
amarela de Estrela. Como ainda sou, agasalhada nas asas de minha casa de vó que
prepara o presépio como quem prepara o futuro para meus filhos ,
netos e, agora, com o encantamento que tenho
com meus dois bisnetos, Isadora e João Pedro...
É
o meu banco de afetos que enfeita a nossa mesa de trabalho com um calendário novo, onde o
novo ano me abraça e espera minhas
palavras novas... Olho o calendário novo - os doze meses - que
me farão companhia- me esperam. Nós nos
olhamos como dois conhecidos antigos, sabendo que estaremos juntos, outra vez. Não tenho medo do novo ano, porque estou
segura junto às riquezas que armazenei em meu banco de afetos... Riquezas que
vou tirando, aos poucos, como contas de um rosário que rezo devagarinho, nas
horas de chuva brava, nas horas de pequenas solidões e algumas horas
tristinhas.
Meu banco de afetos nunca me deixa na
mão, porque ele foi fabricado com pequenas coisas preciosas que recolhi e guardei em meus caminhos: um olhar amigo,
um abraço do meu BEM, uma risada de um neto, uma gracinha dos bisnetos, uma
oração que minha mãe me ensinou, uma carta de meu pai, lembranças e saudades
guardadas junto com as esperanças renovadas, pelo carinho dos que
vieram depois de mim e pela fé em um
tempo melhor, como o a alegria do Natal me indica.
Sem falar que, a chavinha mágica do meu banco
está guardada em um lugar bonito de minha alma
e que posso abri-lo ao menor
gesto de emoção: um sorriso-amigo
encontrado em uma esquina, um canteiro
de jardim um entardecer de minha terra,
uma igreja que canta para mim na voz de seus sinos de bronze...
Pois
é. Tenho uma chavinha mágica que me faz feliz a qualquer hora, em qualquer
lugar. E, pra que mais?
_ Pra quê?
Dores do Indaiá, 21 de dezembro de 2024
Feliz ano novo! Feliz novas palavras bonitas!
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