quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016


CACOS DE ESTRELAS

 

Maria

 

         Querida amiga Socorro,

 

         Pego do cabo da pena para saber as notícias de Estrela e, ao mesmo tempo, mandar as minhas.

         Há muito tempo não vou aí e penso que ninguém nem mais divulga o meu semblante de quando eu era menina pequena.

          O   sol anda fazendo arte  por demais, tão estatalado que faz a vista da gente embaraiá... Outra hora, o céu ficava com aquele azul-longe que me dava uma saudade roxa da voz de minha mã – ela é que falava azul-longe... Eu já estava ficando  embizorrada, em tempo de dar uma duda...Mas toda vespra de Natal me bate essa saudade doida, me deixa forra do prumo...

          Então me deu na bistunta, arrebitei a tanga  e  resolvi escrever essas maltraçadas linhas para dar sossego ao meu coração!

 

         Socorro, socorro! Acode sua amiga vasqueira e me faz um grande obséqui: reúne a meninada do nosso tempo estrelado e vamos dar uma parada no tempo, mostrar pro povo de hoje como é que se faz um Natal de verdade.

        Chama a Peti, a Marília, a Zizi, a Ilza, a Zenaide, a Vitória a Bete e a Elfra, a réqua das maiorzinhas.

         Depois chama a miudeza: Perpétua, Maria da Luz, e os meninos-homens, que eles são mitra pra descobrir as belezuras no mato, aquelas que quando estão no  presépio, parece que estão no céu, sabe?

         Avisa eles que, esse tempo aí em Estrela é muito traiçoeiro: dá cada canca d'água que os caminhos viram uma barrela mole, perigosa por demais. Só depois da água escorrer pros corgos é que eles podem sair de novo, bispar tudo, achar aquele horror de ninhos, aquela sortida de barbas-de-pau... Lembra do Jair da Sá Alvina? Uma vez ele foi atrás de um ninho-de-guacho, do outro lado do Leitão, deu um chuveiro de redemunho, ele azuretou, subiu num pé- de- pau e todo mundo pensou que ele tinha sovertido. Mas ele apareceu com o ninho maior que nós já vimos – ele ficou despendurado na gruta, bem perto do Menino Jesus – foi um encantamento!

         Mas... Socorro, estou desviando do assunto principa: reunir a meninada, juntar os ingredientes todos, porque, quando eu estrelar aí, é só abri a casa, varrer o terreiro com vassourinha- de- alecrim pra perfumar o ar e...

         Primeiro, fala pra D. Maria do Onofre pra ir ensaindo o Noite Feliz, o Adeste Fideles, o Nasceu-nos um Menino, o É a Noite, é a Neve e os outros cânticos de costume: ela sabe. Ah, pra ela deixar a Irani e a Aurora fazerem a segunda voz, que fica muito mais entoado!

         Reparte os meninos (e as meninas- mulher): uns vão plantar arroz nas latinhas que eu deixei lá na casinha da cisterna, num saco de cimento. O saco vai ser a gruta – pode arranjar mais uns dois, lá na venda do Zé Merenda eles dão.

         Outros vão procurar lodo- que hoje eles chamam de musgo – lá na Biquinha tem uns gordos, fofos e grandes: é só tirar com um canivete bem afiado, deixando bastante terra por baixo, pra durar. O canivete? Todo menino tem um no bolso, não se lembra?

         As meninas podem ir ajuntado caquinhos de espelho, lá no quintal tem muitos – é só esgravatar a terra onde era o chiqueiro...

         Agora, prestenção pra fábrica da gruta: arranja caquinhos de vidro e de garrafas – lá na Famácia do Jacy tinha um tanto no canto do muro, desde o tempo do Izir, do Itajiba e do Sô Revalino eles tinham essa mania de juntar os cacos de estrela como a gente falava-nesse canto... Lava tudo bem lavado,  pra mostrar o brilho – eles vão virar estrelinhas no céu da gruta! Pra eles virarem estrelas, tem de socar tudo no pilão que a Madrinha Maria deixou encostado na casinha do Fundo do Negócio, debaixo de um pé de Sempre-Lustrosa.

         Procura pó de café – só um tiquinho – lá nas latas da prateleira da mamãe e um pouco de cinza do fogão de lenha... Aproveita e pega um punhadinho de carvões graúdos. Agora, pensa: o céu lá de cima é tão azulzinho e a D. Maria Cardosa ensinou fazer o céu da gruta com esse tanto de coisa escura, mas, mesmo assim, fica a maior beleza. Será que ela já tinha visto o céu de perto? Eu, hem? Sempre achei a Sá Cardosa com cara de céu!

         Numa gavetinha da mesa- de- passar- roupa, a Ana deixou uma porção de malacacheta – uma beleza! Pode pegar, tem só um restinho... Elas também viram estrelas... Será onde o meu pai arranjava malacacheta? Ah, a Tia Helena deu um pouco de purpurina e está na gavetinha também. Tia Helena é aquela chique, uma que tinha uma casa com campainha e sabão na correntinha, lembre que eu contava e todo mundo falava que eu estava fazendo fita? Estava mesmo!!! Pois é, purpurina era coisa de gente chique, ninguém conhecia isso aí em Estrela – fizemos a maior fita nas amigas...As mais regateiras ficaram murchinhas... Aí, meu coração desacostumado fazer ruindade, me deu um psiu: fiquei com dó da Cecy - ela era das mais sem-seca-  e dei um pouquinho pra ela. Ela foi andando devagarinho, com as mãos cheias de pó-de-estrela – um céu na palma das mãos! Até hoje, Socorro, sinto um doce de leite cor-de-rosa batendo no meu peito -meu coração tinha virado doce de leite quando vi a Cecy carregando estrelinhas nas mãos...

         Agora, é só fazer o grude com polvilho ou farinha de mandicoa – fica até melhor, que dá uns carocinhos – o céu fica mais de verdade.Pega saco de moá também – o Zé Merenda até dá pra gente, que tem muita no armazém ele. Os sacos vão servir de matos, de pastos – então pode ser tingido de tinta verde -
Guarani – sua mãe sabe como é; Isso é serviço de gente grande – tem de ferver no fogo – a Sá Cesária tingia pra fora -  procura a Sá Cesária:... Ela ainda mora naquela casinha da moita de bambu? Que coisa, heim,. Socorro, ela tinha os dois dedinhos mindinhos quebrados, dizima que ela era escrava e que eles quebram por ruindade. Credo! Mas,  pede pra ela tingir os pastos pra nós...

         Agora, depois e tudo socado – achou a mão-de-pilão? - passa o grude nos sacos de cimento e joga o pó misturado por cima. Poe uns cacos maiorzinhos aqui e ali, porque há umas estrelas bem estataladas, que nem sol da noite. Põe também uns pedacinhhos de carvão de quando em quando – acho que a gruta do Menino Jesus tinha uns sujinhos de carvão, vai ver que tinha – será por quê? Deixa secar.

         A estrela-guia eu guardei comigo – vou levar: é a mesma que alumiava a gruta de meu tempo-menino. Acredita, ela brilha do mesmo jeito, até hoje!

         Aí... eu chego!

         Meus irmãos pequenos estão com estrelas nos olhos! Cada amigo tem uma lua nos cabelos! Há pó-de-céu no chão de tábuas largas e mamãe sorri purpurina dourada. Papai tem dois caquinhos de vidro azul nos olhos... Peti tem uma estrela-guia no peito e Carlos traz laguinhos de espelhos nas mãos alegres. Madrinha Maria e Ana da mamãe trazem pastores e reis e carneirinhos e ninhos e vaquinhas e burrinhos. Toda a casa brilha – ela é um céu!

         Aos poucos, a gruta toma forma na mesa forrada com a toalha de linho do casamento de mamãe. Os pastos de saco-de-moá  abrigam os cacos de espelho e suas margens de lodo são macias e frescas. Vaquinhas bebem água de espelho e burrinhos pastam grama de tinta Guarani. O ninho-de-guacho está dançando junto com ninhos pequenos, cheios de ovos miúdos... A Sagrada Família já está lá no fundo escuro da gruta. 

Menos o Jesusinho, que só vai chegar à meia-noite. Menos os três Reis , que ainda estão vindo, de mansinho, de mansinho, lá longe!

         Ah, Socorro! Você não está encontrando os ingredientes para essa receita antiga de Natal?

         Mas, eu sei que ela está aí; pergunte ao sino da Igrejinha, ele deve saber onde meus guardados estão...Afinal, minha casa ficava pertinho dele e,  lá da torre,  vigiava tudo! Pergunte ao vento que dançava pelas ruas e ruelas de minha Estrela ele deve saber!

Pergunte às pedras que eu pisava, pergunte ao orvalho que serenava nas madrugadas, pergunte ao sol sertanejo e à lua branca... Pergunte ao céu azulzinho, às árvores de pernas tortas do Cerrado que cerca nossa terra...  Pergunte às estrelas que iluminaram minha vida... Pergunte à velha gameleira – ela sabia de todos os segredos da terrinha...

         E. se de todo não achar nada, Socorro. Procure a Casa das Lembranças, a Casa das Saudades. Lá, eu sei que encontrará tudo.

         _Por quê?

         _ De verdade, não sei direito,mas meu coração anda preferindo morar lá...

                                                   …....................

         Socorro, termino esta carta com os olhos cheios d'água. Peço que não repare os meus erros e dê lembranças a todos. De sua sempre amiga,  do coração, MARIA

......................Dores do Indaiá, 12 de maio de  2006

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