CACOS DE ESTRELAS
Maria
Querida amiga Socorro,
Pego do cabo da pena para saber as
notícias de Estrela e, ao mesmo tempo, mandar as minhas.
Há muito tempo não vou aí e penso que ninguém
nem mais divulga o meu semblante de quando eu era menina pequena.
O sol
anda fazendo arte por demais, tão
estatalado que faz a vista da gente embaraiá... Outra hora, o céu ficava com
aquele azul-longe que me dava uma saudade roxa da voz de minha mã – ela é que
falava azul-longe... Eu já estava ficando
embizorrada, em tempo de dar uma duda...Mas toda vespra de Natal me bate
essa saudade doida, me deixa forra do prumo...
Então me deu na bistunta, arrebitei a
tanga e
resolvi escrever essas maltraçadas linhas para dar sossego ao meu
coração!
Socorro, socorro! Acode sua amiga
vasqueira e me faz um grande obséqui: reúne a meninada do nosso tempo estrelado
e vamos dar uma parada no tempo, mostrar pro povo de hoje como é que se faz um
Natal de verdade.
Chama a Peti, a Marília, a Zizi, a Ilza,
a Zenaide, a Vitória a Bete e a Elfra, a réqua das maiorzinhas.
Depois chama a miudeza: Perpétua, Maria
da Luz, e os meninos-homens, que eles são mitra pra descobrir as belezuras no
mato, aquelas que quando estão no
presépio, parece que estão no céu, sabe?
Avisa eles que, esse tempo aí em
Estrela é muito traiçoeiro: dá cada canca d'água que os caminhos viram uma
barrela mole, perigosa por demais. Só depois da água escorrer pros corgos é que
eles podem sair de novo, bispar tudo, achar aquele horror de ninhos, aquela
sortida de barbas-de-pau... Lembra do Jair da Sá Alvina? Uma vez ele foi atrás
de um ninho-de-guacho, do outro lado do Leitão, deu um chuveiro de redemunho,
ele azuretou, subiu num pé- de- pau e todo mundo pensou que ele tinha
sovertido. Mas ele apareceu com o ninho maior que nós já vimos – ele ficou
despendurado na gruta, bem perto do Menino Jesus – foi um encantamento!
Mas... Socorro, estou desviando do
assunto principa: reunir a meninada, juntar os ingredientes todos, porque,
quando eu estrelar aí, é só abri a casa, varrer o terreiro com vassourinha- de-
alecrim pra perfumar o ar e...
Primeiro, fala pra D. Maria do Onofre
pra ir ensaindo o Noite Feliz, o Adeste Fideles, o Nasceu-nos um Menino, o É a
Noite, é a Neve e os outros cânticos de costume: ela sabe. Ah, pra ela deixar a
Irani e a Aurora fazerem a segunda voz, que fica muito mais entoado!
Reparte os meninos (e as meninas-
mulher): uns vão plantar arroz nas latinhas que eu deixei lá na casinha da
cisterna, num saco de cimento. O saco vai ser a gruta – pode arranjar mais uns
dois, lá na venda do Zé Merenda eles dão.
Outros vão procurar lodo- que hoje eles
chamam de musgo – lá na Biquinha tem uns gordos, fofos e grandes: é só tirar
com um canivete bem afiado, deixando bastante terra por baixo, pra durar. O
canivete? Todo menino tem um no bolso, não se lembra?
As meninas podem ir ajuntado caquinhos
de espelho, lá no quintal tem muitos – é só esgravatar a terra onde era o
chiqueiro...
Agora, prestenção pra fábrica da gruta:
arranja caquinhos de vidro e de garrafas – lá na Famácia do Jacy tinha um tanto
no canto do muro, desde o tempo do Izir, do Itajiba e do Sô Revalino eles
tinham essa mania de juntar os cacos de estrela como a gente falava-nesse
canto... Lava tudo bem lavado, pra
mostrar o brilho – eles vão virar estrelinhas no céu da gruta! Pra eles virarem
estrelas, tem de socar tudo no pilão que a Madrinha Maria deixou encostado na
casinha do Fundo do Negócio, debaixo de um pé de Sempre-Lustrosa.
Procura pó de café – só um tiquinho –
lá nas latas da prateleira da mamãe e um pouco de cinza do fogão de lenha...
Aproveita e pega um punhadinho de carvões graúdos. Agora, pensa: o céu lá de
cima é tão azulzinho e a D. Maria Cardosa ensinou fazer o céu da gruta com esse
tanto de coisa escura, mas, mesmo assim, fica a maior beleza. Será que ela já
tinha visto o céu de perto? Eu, hem? Sempre achei a Sá Cardosa com cara de céu!
Numa gavetinha da mesa- de- passar-
roupa, a Ana deixou uma porção de malacacheta – uma beleza! Pode pegar, tem só
um restinho... Elas também viram estrelas... Será onde o meu pai arranjava
malacacheta? Ah, a Tia Helena deu um pouco de purpurina e está na gavetinha
também. Tia Helena é aquela chique, uma que tinha uma casa com campainha e
sabão na correntinha, lembre que eu contava e todo mundo falava que eu estava
fazendo fita? Estava mesmo!!! Pois é, purpurina era coisa de gente chique,
ninguém conhecia isso aí em Estrela – fizemos a maior fita nas amigas...As mais
regateiras ficaram murchinhas... Aí, meu coração desacostumado fazer ruindade,
me deu um psiu: fiquei com dó da Cecy - ela era das mais sem-seca- e dei um pouquinho pra ela. Ela foi andando
devagarinho, com as mãos cheias de pó-de-estrela – um céu na palma das mãos!
Até hoje, Socorro, sinto um doce de leite cor-de-rosa batendo no meu peito -meu
coração tinha virado doce de leite quando vi a Cecy carregando estrelinhas nas
mãos...
Agora, é só fazer o grude com polvilho
ou farinha de mandicoa – fica até melhor, que dá uns carocinhos – o céu fica
mais de verdade.Pega saco de moá também – o Zé Merenda até dá pra gente, que
tem muita no armazém ele. Os sacos vão servir de matos, de pastos – então pode
ser tingido de tinta verde -
Guarani – sua mãe sabe como é; Isso é serviço de gente grande – tem de ferver no fogo – a Sá Cesária tingia pra fora - procura a Sá Cesária:... Ela ainda mora naquela casinha da moita de bambu? Que coisa, heim,. Socorro, ela tinha os dois dedinhos mindinhos quebrados, dizima que ela era escrava e que eles quebram por ruindade. Credo! Mas, pede pra ela tingir os pastos pra nós...
Guarani – sua mãe sabe como é; Isso é serviço de gente grande – tem de ferver no fogo – a Sá Cesária tingia pra fora - procura a Sá Cesária:... Ela ainda mora naquela casinha da moita de bambu? Que coisa, heim,. Socorro, ela tinha os dois dedinhos mindinhos quebrados, dizima que ela era escrava e que eles quebram por ruindade. Credo! Mas, pede pra ela tingir os pastos pra nós...
Agora, depois e tudo socado – achou a
mão-de-pilão? - passa o grude nos sacos de cimento e joga o pó misturado por
cima. Poe uns cacos maiorzinhos aqui e ali, porque há umas estrelas bem
estataladas, que nem sol da noite. Põe também uns pedacinhhos de carvão de
quando em quando – acho que a gruta do Menino Jesus tinha uns sujinhos de
carvão, vai ver que tinha – será por quê? Deixa secar.
A estrela-guia eu guardei comigo – vou
levar: é a mesma que alumiava a gruta de meu tempo-menino. Acredita, ela brilha
do mesmo jeito, até hoje!
Aí... eu chego!
Meus irmãos pequenos estão com estrelas
nos olhos! Cada amigo tem uma lua nos cabelos! Há pó-de-céu no chão de tábuas
largas e mamãe sorri purpurina dourada. Papai tem dois caquinhos de vidro azul
nos olhos... Peti tem uma estrela-guia no peito e Carlos traz laguinhos de
espelhos nas mãos alegres. Madrinha Maria e Ana da mamãe trazem pastores e reis
e carneirinhos e ninhos e vaquinhas e burrinhos. Toda a casa brilha – ela é um
céu!
Aos poucos, a gruta toma forma na mesa
forrada com a toalha de linho do casamento de mamãe. Os pastos de
saco-de-moá abrigam os cacos de espelho
e suas margens de lodo são macias e frescas. Vaquinhas bebem água de espelho e
burrinhos pastam grama de tinta Guarani. O ninho-de-guacho está dançando junto
com ninhos pequenos, cheios de ovos miúdos... A Sagrada Família já está lá no
fundo escuro da gruta.
Menos o
Jesusinho, que só vai chegar à meia-noite. Menos os três Reis , que ainda estão
vindo, de mansinho, de mansinho, lá longe!
Ah, Socorro! Você não está encontrando
os ingredientes para essa receita antiga de Natal?
Mas, eu sei que ela está aí; pergunte
ao sino da Igrejinha, ele deve saber onde meus guardados estão...Afinal, minha
casa ficava pertinho dele e, lá da
torre, vigiava tudo! Pergunte ao vento
que dançava pelas ruas e ruelas de minha Estrela ele deve saber!
Pergunte às
pedras que eu pisava, pergunte ao orvalho que serenava nas madrugadas, pergunte
ao sol sertanejo e à lua branca... Pergunte ao céu azulzinho, às árvores de
pernas tortas do Cerrado que cerca nossa terra... Pergunte às estrelas que iluminaram minha
vida... Pergunte à velha gameleira – ela sabia de todos os segredos da
terrinha...
E. se de todo não achar nada, Socorro.
Procure a Casa das Lembranças, a Casa das Saudades. Lá, eu sei que encontrará
tudo.
_Por quê?
_ De verdade, não sei direito,mas meu
coração anda preferindo morar lá...
…....................
Socorro, termino esta carta com os
olhos cheios d'água. Peço que não repare os meus erros e dê lembranças a todos.
De sua sempre amiga, do coração, MARIA
......................Dores do Indaiá, 12 de maio de 2006
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